
Após longo e rico dia de debates sobre as pautas de interesse dos servidores do Poder Judiciário mineiro, o 26º Encontro se encerra lançando o desafio de ouvir quem ainda é silenciado e acolher na integralidade as reivindicações daqueles e daquelas que são postos à margem da cidadania.
A reflexão foi conduzida pela defensora pública Marolinta Dutra, que abordou o racismo estrutural, em suas múltiplas dimensões; e a servidora da comarca de São Francisco Tamiris Almeida, que discorreu sobre o capacitismo e sua experiência como PcD no TJMG.
O racismo está no Judiciário
“Um passo importante é que, em congressos e seminários, se convide pessoas pretas para falar sobre o tema”, propõe Marolinta, ao refletir sobre caminhos necessários para combater o racismo no Judiciário e no âmbito sindical.
Valendo-se de dados produzidos em levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a defensora também demonstrou a disparidade entre brancos e negros nos quadros de servidores do Judiciário, seja na composição geral, seja nos cargos de chefia, onde apenas 4% das mulheres negras e 5,5% dos homens negros estão presentes.
Outra dimensão do racismo que se reproduz no Sistema de Justiça é a seletividade penal e policial, que se repete diariamente, há séculos, “na escolha do alvo a partir da cor da pele, idade, grau de instrução, roupa que se veste, existência de cicatrizes e tatuagens ou até mesmo o vocabulário empregado”, caracteriza a defensora.
Por fim, Marolinta propõe uma reeducação da forma de pensar, perceber e agir, de modo que “o racismo perca suas raízes nas instituições e na estrutura da sociedade”, defende, acrescentando que “é necessário também que mais mulheres pretas ocupem cargos de poder, seja na política, nas empresas, nas instituições”, defende.
Sheila Salomé, diretora do SERJUSMIG, aproveitou o ensejo para lembrar que, a partir do último Encontro de Negros e Negras da FENAJUD, o sindicato trabalha na constituição de um coletivo antirracista. Ela também convidou os participantes a uma reunião para discutir essa tarefa e à participação na Marcha das Mulheres Negras, a acontecer em novembro.
Transpor barreiras
No encerramento da última mesa, os servidores PcD foram representados pela servidora Tamiris Almeida, que ingressou no Judiciário no concurso 01/2017. “Foi graças à luta do sindicato pelo concurso que eu fui admitida”, ressalta.
Tamiris abordou as barreiras físicas, culturais e institucionais enfrentadas pelos trabalhadores PCD no Judiciário. Esse foi o tema central do Seminário Intersindical “Inclusão e Dignidade no Serviço Público”, realizado em setembro, do qual Tamiris participou com outros colegas.
Em sua exposição, a servidora ressaltou a importância da luta sindical para a superação dessas barreiras. Ela também faz um apelo aos colegas de trabalho: “não nos considerem como se fôssemos apenas pessoas com deficiência, somos servidores querendo trabalhar”, reivindica.
Com relação à sua experiência de trabalho, Tamiris frisa que, assim como outros colegas, foi aprovada em concurso e tem contribuído com a prestação jurisdicional. Esse empenho, porém, muitas vezes esbarra na falta de acessibilidade sistêmica e na comunicação precária no Tribunal.
“Que a gestão olhe para o servidor. A gente pode demorar, pois existe a falta de acessibilidade e de comunicação. Mas a gente, ao entrar, quer ser aproveitado, não estamos no Tribunal apenas para ‘cumprir cota’, não é esse o nosso objetivo. Essa é a mensagem que eu queria deixar”, afirma.
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