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O burnout e a captura da subjetividade do trabalhador e da trabalhadora




Antes de escrever este artigo sobre o burnout, fiz uma pesquisa na internet sobre o assunto. Vários textos explicam o que é o burnout ou esgotamento físico, mental e emocional, causado pelo excesso de trabalho (em anexo os links no final deste artigo). Outros artigos, como o publicado no site da ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), abordam os sintomas, ou seja os efeitos do burnout sobre o indivíduo, e o código internacional da doença (CID). O site do Instituto Declara aborda aspectos jurídicos do burnout, o que é doença ocupacional, e a lista das doenças que tem relação com o trabalho. O reconhecimento da OMS (Organização Mundial da Saúde) do burnout como doença ocupacional já é um grande avanço a ser considerado, mesmo assim é necessário um laudo pericial que comprove a relação entre o esgotamento e o trabalho, além de eventualmente ser necessário um processo judicial para comprovar esse nexo. Sabemos que em todo processo há a necessidade de provas documentais e testemunhais. Percebemos, portanto que o tema é bem complexo e possui várias abordagens, mas todas citadas abordam o final do processo de adoecimento. Este artigo, portanto, buscará entender as possíveis causas do burnout.

Inicialmente temos que analisar a forma como o trabalho se organizou no século XXI, com o avanço da globalização, do projeto neoliberal e seus impactos sobre a saúde do trabalhador. Vamos procurar entender porque o trabalhador aceita o excesso de serviço laboral, que o levará ao adoecimento e ao esgotamento. O trabalho no mundo globalizado apresenta três características principais, seja na iniciativa privada ou no serviço público: o uso da tecnologia, para acelerar o ritmo em busca de mais produtividade, e metas que devem ser batidas constantemente. Esses três elementos, tecnologia, metas e produtividade, são a base do capitalismo. Adam Smith, no século XVIII, em seu livro “A riqueza das Nações” citou a tecnologia e a produtividade como essenciais ao desenvolvimento e lucratividade no capitalismo, afinal, foi a tecnologia das máquinas movidas a vapor que movimentaram as locomotivas e fábricas, gerando mais produtividade e lucro na chamada Primeira Revolução Industrial.

A produtividade, dogma do modo de produção capitalista, pode ser obtida pela aceleração do ritmo de trabalho, pela tecnologia, pela agilidade ou capacidade física/psíquica dos envolvidos no trabalho, pela captura da subjetividade do trabalhador pela empresa/instituição ou pelo recurso de obrigar o trabalhador fazer horas extras e ser multifuncional. A captura da subjetividade do trabalhador, segundo o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes “é uma forma de controle, e uma organização do trabalho capaz de se apropriar ainda mais efetivamente do intelecto do trabalho, na sua dimensão cognitiva”; ou seja, o que seria um problema da empresa torna-se um problema para o trabalhador resolver, pois ele “é a empresa”. Segundo outro sociólogo do trabalho, Giovanni Alves, o trabalhador é encorajado a pensar proativamente e a encontrar soluções antes que o problema aconteça. O trabalhador é obrigado a pensar muito mais, colocando a inteligência humana a serviço da empresa/instituição. 

Outra questão que deve ser analisada é o aceleramento do processo de trabalho a distância, em que se misturou jornada com política de metas e produtividade, já que a pandemia mundial do covid-19 criou a necessidade do isolamento social para evitar o alto índice de contágio do vírus, e, portanto, a implementação de forma acelerada do trabalho a distância. Dessa forma, estas já são algumas características do trabalho à distância no século XXI: uso da tecnologia, com o trabalhador produzindo distante do local de trabalho, mas integrado ao processo produtivo no cyberespaço. Giovanni Alves afirma também, que os investimentos em tecnologia, ciência e infraestrutura social “apresentam-se como um método, empregado pelo capital, para mediante o aumento de sua força produtiva explorá-lo mais lucrativamente, ou seja, a tecnologia vem para explorar ainda mais o trabalhador”. Assim, a captura da subjetividade se dá por meio da coerção ou do consentimento do próprio trabalhador, mas, como afirma Ricardo Antunes, o sentido da captura da subjetividade é traduzido na figura do inspetor interior, que perscruta com seu olhar as tarefas do trabalho de si e dos outros. O operário ou empregado torna-se patrão de si mesmo e dos outros, através de um corpo útil, produtivo e submisso, conforme constatado pelo autor.

Este aspecto psicológico de se considerar chefe de si mesmo, exigindo cada vez mais produção, dever ser analisado como um dos fatores de esgotamento. O medo de perder o emprego, como por exemplo na reforma administrativa, que tem como proposta que a estabilidade do servidor público possa ser anulada caso ele não consiga manter a produtividade exigida, gera medo e angústia, por isso o trabalhador começa a exigir de si mais do que pode dar conta. Entretanto, possuímos nosso limites e diferenças individuais, e cada um reage de forma diferente às pressões no trabalho, fazendo com que muitos trabalhem com sofrimento psíquico, o que resulta em queda de produtividade, mais sofrimento, mais cobrança subjetiva para produzir mais, mesmo já trabalhado além da jornada, nas folgas e fins de semana. Parece que hoje temos que viver exclusivamente para ao trabalho, sem tempo para lazer, atividades prazerosas, convívio familiar e social, e isto gera o aumento de doenças psíquicas como ansiedade, depressão e o burnout.

Portanto, se simplificarmos, o excesso de trabalho, unido a captura da subjetividade, e falta de lazer e atividades prazerosas, no meu entendimento, são as principais causas do burnout, ou seja, o esgotamento profissional, e esses fatores relacionados à organização do trabalho devem ser analisados para que produtividade e saúde caminhem juntos. Para que isso ocorra, é necessário nos preocuparmos com os fatores que podem causar o burnout, articulando para que as empresas e instituições busquem projetos de humanização do trabalho, a fim de melhorar a saúde mental e emocional do trabalhador e criar condições para o exercício de um trabalho que gere produtividade sem sofrimento ou adoecimento. 

Procure o NST (Núcleo de Saúde do Trabalhador) do SERJUSMIG para orientações, apoio e acolhimento caso você estiver com sintomas de esgotamento causado por excesso de trabalho e metas impossíveis de serem cumpridas. 

 

Para saber mais:

Síndrome de burnout (esgotamento profissional), por Maria Helena Varella Bruna
Entenda as principais diferenças entre burnout, estresse e depressão, pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT)
Como identificar uma doença ocupacional, Por Ecossistema Declatra
Qual a diferença entre doença profissional e doença do trabalho?, por Katy Brianezi

 

Artigo de Arthur Lobato, Consultor na Área de saúde do Trabalhador; Especialista no Combate ao Assédio Moral; Psicólogo CRP 04 22507; Fundador e integrante do Núcleo de Saúde do Trabalhador do SERJUSMIG (NST).

 

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