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SERJUSMIG

Quando o interesse privado se sobrepõe ao público, tudo o que se tem é destruição

 

No dia 25 de janeiro deste 2019, mais uma vez, um crime foi cometido contra centenas de famílias, por uma empresa privatizada sob forte suspeita de irregularidades.

A privatização da Vale aconteceu em maio de 1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, num leilão na Bolsa de Valores do Rio. Governos que o sucederam foram omissos e, portanto, coniventes. Grande número de parlamentares tem seus mandatos patrocinados pela empresa.

A empresa, antes pública e agora privada, é hoje a terceira maior em valor de mercado do país, ficando atrás apenas da Petrobras e do Itaú Unibanco. Avaliada em R$ 289,8 bilhões, a Vale é uma das maiores mineradoras do mundo.

A venda da empresa rendeu R$ 3,3 bilhões aos cofres públicos. Cercada de polêmica, a privatização da Vale gerou reações, sendo um dos motivos o fato de o preço não ter levado em conta o valor potencial das reservas de ferro da companhia na época, mas tão somente o valor de sua infraestrutura. Um oficial de justiça, munido de ordem judicial, chegou a parar o leilão, mas que, ao final, teve o infeliz desfecho: a confirmação da privatização.

O interesse privado se sobrepondo ao público

As privatizações geraram milhares de demissões nos anos 1990, terceirização, exploração do trabalho. Mas o saldo negativo, de uma forma ou de outra previsível, seria, como foi, maior do que o esperado.

Passados pouco mais de três anos da tragédia que devastou Bento Rodrigues, distrito de Mariana, e a menos de 200 quilômetros de distância, uma segunda calamidade acontece: agora foi a vez do córrego do Feijão, distrito de Brumadinho, ser varrido pela lama dos rejeitos de minérios.

A maior tragédia ambiental da história nacional, em Mariana, não foi suficiente para que a direção e os acionistas da privatizada Vale pensassem em diminuir um pouco do gigantesco lucro já obtido até então, usando outras técnicas de barragens de rejeitos da mineração capazes de diminuir o risco de novas tragédias. A opção de gestão parece ser economizar no custo para assegurar mais lucro ao acionista. 

Prova disso é o discurso do atual presidente da companhia, Fabio Schvartsman, ao tomar posse em 2017: “Acreditamos que, neste momento, é muito importante tratar bem o mercado acionário. Vamos pagar dividendos polpudos a partir de uma política agressiva que já rendeu US$ 2 bilhões aos acionistas (já aprovada), que veio para ficar.”

Privatização só beneficia o capital

Os crimes promovidos pela companhia nos casos de Mariana e Brumadinho devem servir de exemplo para o País, que, sem o devido envolvimento da sociedade, segue com a onda de privatizações. Em Minas, o governo eleito já prepara um plano de privatizações, envolvendo companhias estratégicas, como a CEMIG. O patrimônio público é entregue a preço de banana a exploradores que não têm qualquer compromisso com o bem estar social da população. Eles só visam ao lucro e mais lucro e mais lucro, custe o que custar.

O caso de Brumadinho e de Mariana revelam claramente que é falsa a afirmação de que as privatizações são benéficas. Elas não asseguram melhoria na qualidade da prestação de serviços e, na maioria das vezes, o que arrecadam no momento da privatização para os cofres do Estado são por elas recuperadas em pouquíssimo tempo, indo parar no bolso dos grandes empresários e acionistas que compram a preço de banana o patrimônio do povo brasileiro.

No final, é o público que sofre e se solidariza

Nas duas tragédias, porém, os dois lados: público e privado, se mostram bem distintos.

Acompanhando as cenas das tragédias, o que se vê é o servidor público: bombeiros, policiais, peritos, médicos atendendo às vítimas, colocando suas vidas em riscos, para salvar o povo atingido.

A quase totalidade da estrutura para o salvamento e socorro às vítimas é pública: helicópteros, hospitais, IML, ambulâncias…

Enquanto isso, os dirigentes e acionistas da Vale retiram uma “beiradinha” de seu lucro para ofertar uma “alento” às famílias atingidas. Sequer foram capazes de assegurar que o som de uma sirene soasse avisando aos seus trabalhadores e à população do entorno que a lama ia descer destruindo tudo em poucos segundos.

Sequer foram capazes de construir um refeitório e uma sede administrativa para seus trabalhadores que ficassem fora do caminho natural que a lama seguiria em caso do rompimento da barragem. Medidas simples, não suficientes, mas que, sem qualquer sombra de dúvidas, minimizaria a tragédia humana ocorrida. Centenas de vidas perdidas. Milhares de vidas devastadas, para sempre, em favor da ganância do capital.

Privatizações não são benéficas para a coletividade! Serviço público de qualidade, sim!

Não sejamos omissos. Vamos cobrar que os culpados pelos crimes de Mariana e Brumadinho sejam devidamente punidos! 

Foto de capa: Reprodução/TV Record

Foto 2: Cristiane Mattos

Foto 3: Alex de Jesus