
Com o passar do tempo, para muitas pessoas ao redor do mundo, o dia 8 de março se tornou uma data comemorativa comum. Um dia para presentear as mulheres com flores ou chocolates. Um dia em que se diz “parabéns pelo dia das mulheres!”, muitas vezes sem pensar na origem e significado desta data.
Mesmo com a captura que o capitalismo operou sobre essa data, fazendo com que a maioria das notícias sobre o dia seja sobre onde comprar os melhores presentes para as mulheres, este dia carrega um forte significado. O dia 8 de março é dia de comemorar, sim, mas a comemoração se refere às conquistas e lutas que ainda estão por vir.
Durante a vida, as mulheres precisam lidar com pressões vindas de diferentes lados. É comum que muitas pessoas do sexo feminino se sintam constantemente inclinadas à necessidade de serem perfeitas. Mas a sociedade faz com que todas elas tenham certeza de que todo esse esforço nunca será o bastante. Também é notório o ódio e a dificuldade dessa sociedade para com mulheres livres. É preciso lutar para decidir como se relacionar com o próprio corpo, lutar para decidir sobre a formação de uma família e, depois, ainda é preciso lutar pela liberdade de usar o seu tempo como quiser, seja como dona de casa ou como uma mulher que prioriza o trabalho externo.
Dupla Jornada
A pressão sobre as mulheres para constituir uma família, se casar e cuidar da casa é intensa, mas, na busca pela independência, muitas lutam para cuidar da família e trabalhar. Para mães solteiras, a situação é ainda mais difícil. Além dos obstáculos diários, ainda lidam com os olhares preconceituosos da sociedade. Essa dupla jornada leva o sexo feminino a trabalhar cerca de 7,5 horas a mais do que os homens em uma semana, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
O excesso de trabalho ainda pode desencadear problemas mentais. Segundo o artigo “Doença mental, mulheres e transformação social: um perfil evolutivo institucional de 1931 a 2000”, publicado pela Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, “a dupla jornada motiva contradições e conflitos, estando estes provavelmente envolvidos na psicogênese e no desencadeamento dos transtornos psiquiátricos. Além disso, as pressões econômicas e sociais têm levado, cada vez mais, um maior número de mulheres a ingressarem no mercado informal de trabalho, o que representa uma oportunidade limitada e não reconhecida do uso de suas capacidades”.
Mercado de Trabalho
Ainda no mercado de trabalho, a luta feminista traz à luz algo ainda muito presente e grave: a desigualdade salarial. De acordo com uma pesquisa do IBGE, em 2018, as mulheres representavam 45,3% da força de trabalho e ganhavam 79,5% do total do salário pago ao homem, com uma pequena diferença na jornada semanal, que era menor em 4,8 horas, mas sem contar o tempo gasto com afazeres domésticos e cuidados de pessoas. A pesquisa ainda apontou que as mulheres ganham menos em todas as ocupações.
Além da desigualdade salarial, ainda é preciso conviver com o constante descrédito dos colegas de trabalho, em várias áreas de atuação. Esse fenômeno é mais comum em ocupações com altos níveis de instrução, como engenharia, advocacia, tecnologia da informação, medicina especializada, etc. O comportamento também pode ser notado quando mulheres ocupam cargos de direção e gerência, até mesmo ligando o sucesso feminino a “favores” sexuais.
Serviço Público
O serviço público é um dos palcos da luta feminista. O nome Maria José de Castro Rebello é um grande símbolo disso. Maria José foi, em 1918, a primeira mulher a ser aprovada em um concurso para o serviço público. Ela foi a primeira colocada no concurso do Itamaraty para Diplomata. Hoje em dia, as mulheres são maioria no serviço público, mas isso não quer dizer que as dificuldades tenham acabado.
Ana Maria Bertelli, assistente social aposentada e diretora social do SERJUSMIG, conta sua experiência no serviço público. “Não sei se é sorte, mas eu escolhi uma profissão eminentemente feminina. Então, eu não vivenciei no mercado de trabalho uma dificuldade por ser mulher, mas a própria profissão em si ocupa um lugar social de segunda classe no mercado de trabalho”, afirma, ressaltando que esse estereótipo tem fundamentos machistas.
Ana Maria também aborda a necessidade de maior esforço das mulheres no mercado de trabalho para receber reconhecimento. “A mulher tem ainda, necessariamente, no século XXI, que se sobressair em suas funções, em suas competências, em suas percepções, em tudo dentro do mundo do trabalho para que ela seja notada e respeitada em sua inserção.” Mesmo com todo esse esforço e competência, ainda existe a chance de que a mulher não seja valorizada em sua área.
As mulheres são maioria, mas os homens são mais bem remunerados, por estarem em cargos mais altos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 55% das vagas nas esferas federais, estaduais e municipais são ocupadas por mulheres. Porém, dentro dessa estatística, somente 41% dos cargos são posições de direção e assessoramento superior.
Nos cargos eletivos, a proporcionalidade também é inversa à população brasileira. Dados do IBGE indicam que o sexo feminino representa 51,8% do povo brasileiro, mas, segundo a Agência Câmara de Notícias e o site do Senado Federal, dos vereadores e prefeitos eleitos no pleito de 2016, apenas 13,5% e 12,2% são mulheres, respectivamente. A lei define que 30% das candidaturas de cada partido sejam de mulheres, mas não estipula um percentual mínimo de cargos eletivos que devem ser ocupados por mulheres.
Luta diária
Mesmo com tantos marcos conquistados pelo feminismo, ainda existe muito pelo que lutar. Apesar de conseguirmos colocar em uma linha do tempo as conquistas femininas no Brasil ao longo dos anos, há uma nítida desigualdade nas trajetórias de mulheres brancas e negras. Um exemplo é que, em 1827, é criada a primeira escola feminina do Brasil, porém, a primeira escola para pessoas negras só é criada em 1853.
Ainda que em pautas diferentes, é importante frisar a necessidade de união das mulheres para superar os obstáculos diversos impostos pelo patriarcado. Todos os dias, é negado o lugar de direito de uma mulher em algum lugar, mas ao mesmo tempo, alguma mulher alcança o sucesso. É essencial que a luta seja coletiva para que toda comemoração também seja.
Para estimular tal reflexão, Ana Maria Bertelli colocou essa luta diária em palavras no texto “Vida de Mulher”:
Vida de mulher é sinônimo de luta
De luta para sermos aceitas, enquanto sujeitos de direitos; enquanto cidadãs passíveis de escolhas de um parceiro (ou parceira), da forma como vamos gerenciar o nosso corpo, do exercício ou não da maternidade.
De luta cotidiana por um espaço no mundo público do trabalho, onde nossas capacidades sejam reconhecidas para além dos papéis femininos tradicionalmente impostos e sim pela condição de seres capazes de ultrapassar barreiras e construir possibilidades.
De luta contra a violência que nos assola, tanto no mundo doméstico quanto no mundo público e que destrói sonhos e vidas.
De luta por igualdade jurídica que nos permitiu votar e ser votada; permitiu-nos ser economicamente ativas, gerenciar o nosso próprio patrimônio e sermos reconhecidas como chefes de família;
De luta por um mundo sem opressão, sem humilhação e sem discriminação, pelo simples fato de termos nascido mulheres;
De luta por um mundo sem culpa pela necessidade de jornadas duplas e até triplas de trabalho para assegurarmos o nosso próprio sustento e o sustento de quem amamos.
Vida de Mulher é vida de luta porque somos fortes, valentes e transgressoras da ordem masculina dominante incisivamente estabelecida; porque enfrentamos as diversidades de cabeças erguidas e porque, se caímos, caímos sempre de pé!
Lugar de Mulher é onde ela quiser!