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SERJUSMIG

“Imunidade de rebanho” vai matar milhões e não é a solução

 

Já são mais de 80 mil mortes por Covid-19 e mais de 2 milhões de casos de contágio confirmados no Brasil desde o início da pandemia. Durante esses mais de quatro meses, o país teve seu Ministro da Saúde trocado duas vezes, e segue sem representante na pasta há mais de sessenta dias.

Em meados de março, foi estabelecido o isolamento social, com manutenção de funcionamento presencial apenas dos serviços essenciais no país. De lá pra cá, não houve novas medidas de combate ao coronavírus como ação do Governo Federal. 

Apesar dos muitos alertas da comunidade científica, a alta capacidade de propagação do vírus foi subestimada pelos governos federal e de Minas Gerais desde o início da pandemia. Em 24 de março, o presidente Jair Bolsonaro comparou a doença a uma “gripezinha”. “Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico, daquela conhecida televisão”, afirmou.

Poucos dias depois, em abril, o governador Romeu Zema afirmou que o vírus deveria “viajar um pouco”, estimulando sua propagação ao contrário de todas as indicações de especialistas que apontavam para o isolamento social. “Se nós impedirmos ele totalmente, ele acaba deixando algumas regiões sem estar infectadas, e amanhã nós vamos ter uma onda gigantesca nessa região. Então, o ideal é que ele se propague, mas devagar, e a ausência total de propagação é ruim”, disse. 

A citação de Zema se refere à teoria científica conhecida como “imunidade de rebanho”, expressão que remete à dinâmica natural de transmissão de doenças infecciosas. De acordo com os cientistas, isso ocorre quando uma parcela grande o suficiente da população foi infectada naturalmente e desenvolveu uma defesa contra o vírus. A doença não consegue se espalhar, porque a maioria das pessoas já está imune. Esse patamar é estimado por especialistas em torno de 60% a 70%.

Países como Reino Unido e Suécia optaram por essa forma de “combate” à pandemia logo no início dos contágios nos países, ignorando o isolamento social e modelos de quarentena. Como consequência da ausência de medidas de isolamento social, ambos tiveram um aumento de casos e mortes superior a de países vizinhos e tiveram de recuar. O governo britânico mudou de estratégia e o governo sueco admitiu não ter se preparado adequadamente.

 

Brasil: Longe da imunização coletiva e muitas mortes contabilizadas 

Em pesquisa recente, os cientistas do Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) fizeram testes para detectar anticorpos contra o coronavírus em 89.397 pessoas de 133 cidades de vários Estados e entrevistas para entender como o vírus afeta diferentes classes sociais e grupos étnicos. O estudo concluiu que 3,8% dos brasileiros já foram infectados, o que indica que o Brasil está longe de atingir a chamada imunidade de rebanho. 

Apesar de novos estudos que apontam uma porcentagem um pouco mais baixa para o alcance da “imunidade de rebanho”, entre 43% ou até 20%, seguimos distantes. Os especialistas ponderam ainda que apenas esperar sem adotar políticas de controle da pandemia, tem um alto custo humano, que pode chegar a até milhões de mortes, e não deve ser estratégia de política pública.

Até que se alcance a imunização coletiva, as mortes em decorrência da doença atingiriam principalmente os mais vulneráveis, já que a taxa de mortalidade por covid-19 é de 80% entre pretos e pardos sem escolaridade e de 19% entre brancos com ensino superior, de acordo com uma pesquisa da PUC-Rio. 

Especialistas apontam que, sem testes para confirmar o número real de pessoas infectadas, tudo não passa de hipótese. Um dos grandes erros apontados pela comunidade científica na atuação de combate ao coronavírus pelo governo brasileiro é a falta de uma política de testagem ampla e maciça. 

Agravando ainda mais a situação, nas últimas semanas, diversos estados e municípios no país têm reaberto o comércio e iniciado o “novo normal”, que nada mais é que normalizar mais de mil mortes diárias em razão da doença e tentar seguir com a economia como se o Brasil não estivesse passando por uma pandemia, principalmente em momento de pico, ou próximo do pico de contágio no país.

 

Distanciamento Social é o que defendemos

Pesquisas mostram que uma pessoa tem potencial para contaminar outras três, em média. Esses três indivíduos infectados transmitem o vírus para outros nove. Os nove replicam para 27. Assim, a progressão faz os casos proliferarem rapidamente, em especial, quando o transmissor ainda não apresenta sintomas.

Medidas de isolamento social, fechamento de estabelecimentos considerados não essenciais, redução de contato entre pessoas, higienização e uso de máscaras são medidas que de fato garantem o controle de contágio do coronavírus. 

Além disso, é necessária a atuação do poder público em apoio a esse isolamento, com ajuda financeira a trabalhadores, comércios e pequenos empresários, política de proteção das populações mais vulneráveis, fortalecimento do Sistema Único de Saúde-SUS, fiscalização efetiva das regras de combate à pandemia, dentre outras ações.

Já estão em desenvolvimento, em várias partes do mundo, vacinas que sejam efetivas contra a Covid-19. Enquanto isso, é preciso ter responsabilidade com a saúde e a vida das pessoas, garantindo a manutenção das regras de proteção, a exemplo do distanciamento social, uso de máscaras e correta higienização das mãos.

O SERJUSMIG denuncia a perversidade da teoria da “imunidade de rebanho”, que só gera ainda mais mortes e sofrimento. O Governador de Minas Gerais deve ser responsável e garantir que as medidas preventivas sejam adotadas, preservando a saúde e a vida das pessoas. Afinal, o papel do Estado é garantir o bem estar social.

 

Imagem: Reuters/Bruno Kelly