
Em um dia histórico para a entidade, o SERJUSMIG realizou na última sexta-feira, 27, o seu 1° Encontro de Mulheres. O evento é um passo importante para o sindicato e demonstra a necessidade de ações coletivas para essa parcela da categoria. Cerca de 66% dos servidores filiados ao SERJUSMIG são mulheres e é essencial reconhecer as especificidades das demandas dessas trabalhadoras.
Com o tema “Pelo direito das mulheres de ser, se expressar, representar e ocupar todos os espaços”, o evento contou com mais de 400 participantes de toda Minas Gerais, sendo elas servidoras do Tribunal de Justiça, funcionárias, diretoras e conselheiras do SERJUSMIG.
Durante a abertura do encontro, as diretoras Ana Maria Bertelli e Yara Vilaça expressaram a importância da realização. “Esse é um sonho de muitos anos e com o nosso esforço conseguimos realizar esse evento, que promete ser o primeiro de muitos. Estou muito feliz e emocionada com a realização”, disse Ana Maria.
Para iniciar o evento, a funcionária Raquel Orlando e a advogada parceira Priscilla Gusmão apresentaram mais detalhes sobre um projeto essencial para as trabalhadoras do TJ, uma nova iniciativa do SERJUSMIG para o combate do assédio moral no local de trabalho.
A 2ª vice-presidente, Yara Vilaça finalizou a solenidade de abertura do encontro falando sobre a importância de lembrar por que as mulheres pertencem aos espaços que ocupam. “Nós não estamos aqui só por sermos mulheres. Estamos aqui pela nossa competência. Precisamos e podemos ocupar todos os espaços que quisermos”, expressou a diretora, reforçando o tema escolhido para o evento.
“Assédio moral, letramento e perspectiva de gênero: precisa disso?”
A advogada, defensora pública e especialista em direito público, privado e em implementações de políticas públicas, Mariana Lima, trouxe um debate importante sobre assédio moral, letramento e perspectiva de gênero.
Combinando a sua experiência como assessora institucional de inovação e estratégia do Gabinete da Defensoria-Geral e coordenadora do Centro de Desenvolvimento Institucional da Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais com a sua formação extensa, a palestrante apresentou fórmulas e estratégias para que as mulheres incluam o letramento e a perspectiva de gênero no cotidiano laboral e na vida social. Letramento traz informação, argumentação e fundamentação.
Mariana expôs a importância de simplificar conceitos e aproveitar as oportunidades de letramento tanto no local de trabalho quanto em situações sociais. A palestrante também discutiu sobre a necessidade de incluir a diversidade nesse debate: “A diversidade é o caminho. A diferença é a chave para construir a sororidade.”
A relevância da criação de coletivos também foi debatida durante a palestra. “Muitas pessoas acreditam que quando as mulheres se reúnem é pro ódio, mas nós nos reunimos para o amor. Não é para destruição, é para construção […] A coletiva traz rede de apoio, segurança e anonimato”, afirmou a defensora.
Mariana ainda reafirmou a mensagem com uma afirmação importante para demonstrar a força de uma coletiva de mulheres:
“Ter uma coletiva de mulheres é ‘perigoso’, pois dela pode vir uma revolução de gênero.”
A palestrante também traz uma lembrança essencial: os homens precisam estar dentro do assunto. É necessário que os homens estejam bem letrados e informados da realidade das mulheres e dos obstáculos a serem superados. Apenas quando essa luta for feita de forma coletiva, será construído um ambiente mais equitativo para todos.
“Sou inteira e nada me aparta de mim: construindo caminhos para o autoamor e a cura afetiva”
A segunda palestra do encontro foi apresentada pela professora e doutora Lívia Natália. Lívia é mestre, doutora e pós-doutora em Literatura, poeta premiada e trouxe um painel essencial sobre o combate à violência em relacionamentos afetivos e caminhos para reencontrar o amor próprio e o autocuidado.
A palestrante trouxe conceitos importantes para o debate e formas de perceber os sinais de um relacionamento abusivo. Lívia também apresentou um pouco mais sobre um perigo recente de um universo misógino que reside na internet, mas já está apresentando seus impactos na vida real: a cultura redpill.
A ideologia online que promove uma visão cínica e misógina nasceu em fóruns de debate online como os aplicativos Discord e Reddit, mas hoje já alcança praticamente todas as redes sociais e perpassa debates da vida offline. Conceitos como o “valor de mercado sexual” colocam as mulheres em lugares objetificados e por vezes até mesmo animalescos, apresentando as “fêmeas” (termo usado de forma pejorativa nesses fóruns) como desvalorizadas dependendo de como levam suas vidas sociais, profissionais e sexuais.
Casos recentes de feminicídio, abusos sexuais e violência doméstica já apresentam sinais dessa cultura. O policial militar acusado de assassinar a esposa teve mensagens divulgadas durante a investigação nas quais ele usava termos característicos da cultura redpill como “macho alpha” e “fêmea beta”, utilizados anteriormente na ciência para representar relações entre animais de natureza coletiva e territorial.
Lívia apresentou formas de reconhecer o abuso e até mesmo sinais de alerta em relacionamentos. Em sua apresentação, a poeta e professora introduziu um “termômetro do abuso”, ferramenta importante para todas as mulheres, principalmente considerando a forma como a sociedade costuma justificar e culpabilizar as vítimas em situações de violência.
ACESSE AQUI A APRESENTAÇÃO DE LÍVIA NATÁLIA
Para lutar contra a realidade da violência, Lívia trouxe um mapa que representa para onde fugir no caso de agressão física. Além disso, a palestrante também lembrou da necessidade de levar consigo apenas o essencial: documentos, chaves, provas da violência e medicação indispensável.
Lutar contra o abuso físico, psicológico, moral, patrimonial e sexual também passa por uma etapa nem sempre lembrada: a autonomia. Pensar sobre a relação, usar a voz para se comunicar com pessoas confiáveis, correr para longe do abusador, lutar contra a violência e contar para autoridades são pilares para a autonomia da mulher e são essenciais para sair do local de vítima.
Lívia finalizou a palestra lembrando que a estrutura do abuso é tão tenebrosa quanto é viciante. “Nós somos ensinadas que o amor e o cuidado se apresentam na possessividade, na ‘preocupação’ […] Vigilância disfarçada de cuidado”, disse a palestrante. O amor não é a vigilância, não é querer a pessoa só para você, muitas vezes esses são sinais de alerta de um relacionamento potencialmente abusivo.
Criação do Coletivo de Mulheres do SERJUSMIG
As diretoras do SERJUSMIG, responsáveis pela iniciativa, reforçaram a felicidade de realizar o evento e a importância dos debates. Melissa Caldeira, 3ª vice-presidente do sindicato, expressou o empenho adicional que todas as mulheres precisam ter para alcançar os seus objetivos:
“Precisamos nos esforçar muito mais para sermos reconhecidas. Essa realidade faz com que a gente se cobre mais, seja na família ou no trabalho. É necessário construir espaços que empoderem as mulheres para que seja lembrado que nós já somos competentes, só precisamos ser confiantes.”
Ana Maria Bertelli e Yara Vilaça, representando toda a diretoria do SERJUSMIG, finalizaram o encontro com a criação do Coletivo de Mulheres do SERJUSMIG e com o compromisso de uma reunião inaugurativa para o grupo, feita de forma que todas as filiadas possam participar. A diretora social, Ana Maria, também apresentou a possibilidade de, no futuro, criação de núcleos regionais do Coletivo, para facilitar a participação das servidoras de todo o estado.
O SERJUSMIG segue na luta por um Tribunal de Justiça e por uma sociedade que apresente equidade e liberdade para as mulheres.
Assim como no poema apresentado no evento, “Manifesta” do Slam das Minas: “Que todas as bocas falem! Que todos os olhos voem! Que todos os corpos libertem- se! Que todas existam!”
SERJUSMIG
Unir, Lutar e Vencer
