
Alguns conceitos referentes à saúde do trabalhador já se tornaram assuntos corriqueiros em conversas e a depressão é um tema que todos comentam. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a depressão é o mal do século.
Os estudos referentes à saúde mental têm fornecido dados importantes para entender este fenômeno que pode acometer qualquer um de nós. Hoje, é inegável o fator trabalho como componente de análise entre as possíveis causas de depressão, e quando falamos de trabalho, falamos do empregado e do desempregado, pois não conseguir trabalho em nossa sociedade de consumo é sinal de fracasso e exclusão, consequentemente um fator importante na depressão.
Se o trabalhador empregado vive a angústia da possibilidade de ficar desempregado, o servidor público concursado, com estabilidade, teoricamente deveria apresentar um quadro de maior sanidade mental e emocional, pois seu emprego está garantido. No entanto, a nova forma de gerenciar o serviço público, o chamado New Public Management, instala a política de metas e produtividade, onde se altera o conceito de produção por jornada de trabalho, para produção a partir de metas estipuladas. Assim, as mudanças tecnológicas acarretam em mudanças organizacionais no trabalho e com isso, o aumento de conflitos no trabalho.
O teletrabalho gera a necessidade de aprendizado do servidor, e que as secretarias estejam informatizadas, ou seja com sistemas operacionais em rede, com internet de alta qualidade, sistema de proteção de firewall, entre outros aspectos técnicos. Por parte do trabalhador, é exigido que ele aprenda fora do horário de trabalho, e muitas vezes, sem tempo para prática, pois não há um sistema de simulação do aprendizado, ou seja, a pessoa deve aprender rapidamente, dominar a tecnologia e trabalhar sem errar. A celeridade judicial e a produtividade também podem ser alcançadas por meio do teletrabalho. Porém, não se justifica que o teletrabalhador tenha que produzir um percentual de produtividade maior do que quem está operando computadores de forma presencial.
Segundo Bruno Farah, psicólogo do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, Doutor em Teoria Psicanalítica (UFRJ/Université Denis Diderot – Paris 7), é preciso interferir na contramão dos mecanismos de gestão que individualizam o trabalho, que criam a competição extremada, produzem uma autonomia enganosa, deterioram as possibilidades de um trabalho comum. Para Farah, a saúde no trabalho deve estar no centro da gestão do trabalho. “A gestão precisa ver a abundância de competências e não sua carência, deve ser capaz de promover uma autonomia compartilhada e uma interdependência entre sujeitos e não a enganosa autonomia prescrita de uma independência solitária e impotente”.
A OMS define depressão como um transtorno mental comum, caracterizado por tristeza, perda de interesse, ausência de prazer, oscilações entre sentimentos de culpa e baixa autoestima, além de distúrbios do sono ou do apetite. Também há a sensação de cansaço e falta de concentração. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a depressão é a principal causa de incapacidade no mundo, afetando diretamente o desempenho e a produtividade de milhões de pessoas. A depressão tornou-se um problema social, “o mal do século XXI”.
Bruno Farah, em seu livro “A Depressão no ambiente de trabalho: Prevenção e gestão de pessoas”, correlaciona a depressão como sintoma social e analisa como o poder paradoxal de um modelo de gestão, compreendido por Gaulejac¹ como doença social, e por Ehrenberg² que analisa a depressão como doença da autonomia, Bruno analisa a depressão e sua relação com o modelo de gestão. Importante é sua constatação que o “enfrentamento do problema precisa dar-se na ordem do coletivo do trabalho”, já que “ninguém evolui – instituição, empresa ou pessoa – sem a participação coletiva” afirma o William Douglas, juiz federal, e que a “saúde no trabalho, deve estar no centro da gestão do trabalho”, conclui Bruno.
Segundo Bruno³, a depressão apresenta os seguintes sintomas:
1) Humor deprimido na maior parte do tempo;
2) Interesse diminuído ou perda de prazer nas atividades diárias;
3) Sensação de inutilidade ou culpa excessiva;
4) Indecisão ou diminuição da capacidade de concentração;
5) Fadiga ou falta de energia;
6) Insônia ou sono excessivo;
7) Agitação ou lentidão de movimentos;
8) Perda ou ganho significativo de peso;
9) Ideias recorrentes de morte ou suicídio.
Cinco destes sintomas, juntos, por mais de 2 semanas, caracterizam o transtorno depressivo maior, mas, apenas um sintoma pode ser extremamente desagradável. Farah afirma que a depressão contemporânea deflagra um sofrimento relacionado a responsabilidade de si, uma doença da autonomia, onde prevalecem sentimentos de insuficiência (não conseguir o suficiente) e vergonha por ter fracassado, por não ter dado conta. Assim, segundo o autor, “a responsabilidade e a vergonha são dois ingredientes centrais para entendermos o sofrimento manifesto na depressão”.
Em caso de problemas relativos à saúde mental no trabalho, procure o NST – Núcleo de Saúde do Trabalhador do SERJUSMIG
¹Gaulejac, Vincent. Gestão como doença social:Ideologia,poder gerencialista e fragmentação social.
²Ehrenberg, Alain. Depressão, doença da autonomia? Entrevista a Michel Botbol. Rio de Janeiro,2004.
³Farah, Bruno. A depressão no ambiente de trabalho: prevenção e gestão de pessoas: um estudo sobre as empresas contemporâneas a luz do Judiciário Federal. São Paulo: Ltr,2016. Pág. 33.
Arthur Lobato – Consultor em Saúde do Trabalhador, Especialista no Combate ao Assédio Moral no Ambiente de Trabalho, membro fundador do NST SERJUSMIG.
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